Projecto Família
Enquadramento
Sabia que:
- Mais de 25 000 crianças vivem em situações de risco?
- 54% das famílias portuguesas apresentam problemas sociais identificados?
- A destruturação familiar é a problemática com maior incidência?
- A maioria dos jovens dá uma especial importância ao bem-estar familiar?
Fonte: Relatório CNPCJ 2006 e estudo “All about teens”
"A criança necessita de amor e compreensão para o desenvolvimento pleno e harmonioso da sua personalidade; sempre que possível, deverá crescer com o amparo e sob responsabilidade dos seus pais mas; em qualquer caso, num ambiente de afecto e segurança moral e material; salvo circunstâncias excepcionais, não se deverá separar a criança de tenra idade de sua mãe."
Princípio VI da Declaração Universal dos Direitos da Criança.
O que é?
"... porque acreditamos na família!"
Lançado pelo MDV em 1996, o Projecto Família é pioneiro em Portugal na área de intervenção intensiva junto de famílias com crianças em risco.
O objectivo fundamental é preservar a família e evitar a institucionalização dos menores através do apoio intensivo, imediato e individualizado a estas famílias mais fragilizadas.
No Projecto Família procuramos:
- apoiar crianças em risco evitando que sejam retiradas das suas famílias e institucionalizadas;
- intervir junto das famílias em crise ajudando-as a mudar comportamentos que possam levar ao afastamento das crianças;
Formado por uma equipa de assistentes familiares, técnicos especializados na área da psicologia, sociologia, entre outras, no Projecto Família acreditamos que as famílias, independentemente da sua situação económica, estatuto social, etnia e crença religiosa, têm potencialidades para mudar os seus comportamentos.

“ É muito gratificante vermos que, efectivamente, as crianças podem em muitos casos viver na sua família de origem se esta for ajudada a cumprir as suas tarefas”
Graça Mira Delgado (directora executiva do MDV)
A metodologia de intervenção que utilizamos passa por uma intervenção junto das famílias mais fragilizadas e dentro das suas próprias casas. A estas famílias prestamos um apoio intensivo, imediato e individualizado.
Inspira-se no Modelo norte-americano, Families First - Homebuilders, implementado pelo Departamento de Serviços Sociais de Michigan desde 1974.
O MDV mantém estreita articulação com o Institute for Family Development, em Seattle, responsável pela implementação e avaliação deste modelo nos EUA. Esta entidade tem providenciado a formação contínua dos supervisores do Projecto Família bem como o suporte técnico.
Ajude-nos a evitar que mais crianças em risco sejam retiradas da sua família e institucionalizadas, o que implica trabalhar as competências das respectivas famílias.
Seja padrinho destas crianças! Juntos vamos UNIR para CONSTRUIR!
Onde actuamos
Sobretudo em áreas de população muito carenciada.
Junto de famílias cujos menores estejam em risco ou perigo, ou estejam institucionalizados e se preveja o seu regresso a casa.Este modelo aplica-se apenas às famílias elegíveis para este tipo de intervenção: famílias com crianças em situação de risco que estão a passar por um momento de crise e querem realmente fazer mudanças na sua vida para conservarem as suas crianças.
As famílias chegam-nos encaminhadas por entidades locais como: Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, Tribunal de Família e Menores, Centros Sociais, Lares e Centros de Acolhimento de Crianças que entram em contacto com o Projecto Família solicitando intervenção.
Qualquer instituição que trabalhe na área da intervenção social pode solicitar uma intervenção do Projecto Família (em Lisboa, Margem Sul e arredores) e do MDV em todo o país, ao nível da formação de técnicos.
Se é uma dessas instituições e se tem algum caso identificado que nos pretenda encaminhar preencha aqui a ficha de sinalização e envie-nos para geral@mdvida.pt. Obrigada!
O tipo de problemáticas que encontramos nestas famílias é variado. Desde situações de pobreza, alcoolismo e toxicodependência; gravidezes precoces de menores, violência doméstica e familiar, desorganização, ausência de hábitos de higiene, negligência dos pais, depressão, delinquência, más condições de habitação e problemas de saúde mental.
Que tipo de apoio prestamos
"... são coisas muito concretas que provocam crises nas famílias: a falta de habitação, um frigorífico que não funciona, a ausência de meios de transporte ou a falta de dinheiro para pagar as contas."
Trabalhamos com as famílias o que estas se sentirem capazes e estejam dispostas fazer, após tomarem consciência da necessidade de alterar comportamentos:
- Treino efectivo de competências pessoais, interpessoais, parentais e domésticas;
- Inserção na rede comunitária (formal e informal): família alargada, amigos, vizinhos, Juntas de Freguesia, Segurança Social, Centros Sociais, Equipamento social e escolar, Banco Alimentar, acesso a bens (BUS, BBD, Modalfa, Cruz Vermelha e outros);
- Auxílio na marcação e acompanhamento dos utentes a consultas de clínica geral e de especialidade (alcoolismo, toxicodependência, HIV, saúde mental) nas questões que envolvem a Justiça, os Serviços de Estrangeiros e Fronteiras, etc…
- Orientação e acompanhamento para serviços de apoio específicos respeitantes a violência doméstica e familiar, abuso sexual e outros;
- Procura activa de emprego e formação profissional;
- Apoio escolar (ajuda na realização de TPC, realização de actividades dinâmicas pedagógicas);
Factores diferenciadores

Metodologia de intervenção
A metodologia de intervenção que utilizamos é inspirada no modelo norte-americano, FAMILIES FIRST - Homebuilders, implementado pelo departamento dos Serviços Sociais de Michigan, desde 1974.
Este modelo caracteriza-se por ser um programa específico de preservação da família em segurança, garantindo o direito que todas as crianças têm de viver com a sua família.
Esta metodologia passa pela intervenção junto das famílias mais fragilizadas e dentro das suas próprias casas, às quais prestamos um apoio intensivo, imediato e individualizado.
Trabalhamos numa disponibilidade total para a família e de forma intensiva durante 6 semanas, havendo depois um acompanhamento periódico da mesma ao longo de todo o ano subsequente.
A metodologia desenvolve-se por fases:
- Em reunião interna de supervisão, a equipa de trabalho analisa as sinalizações e atribuem-se aos Assistentes Familiares as famílias que obedeçam aos critérios de elegibilidade exigidos. De seguida, os Assistentes contactam de imediato as entidades sinalizadoras, agendando uma reunião com a família;
- O Assistente Familiar intervém motivando a família no sentido de ser ela própria a realizar o levantamento das suas necessidades. Identificam-se as potencialidades e fragilidades, os factores protectores e os factores geradores de stress, verifica-se se as tarefas de desenvolvimento estão a ser ou não cumpridas, reflecte-se sobre as causas do incumprimento e treinam-se as aptidões em falta ou em défice.
- Traçam-se então os objectivos a atingir que irão permitir a estadia dos menores em segurança na casa. Estes objectivos são realizados por etapas delineadas semanalmente, em reunião interna de supervisão. O envolvimento do Assistente Familiar vai desde a motivação para a mudança e o treino de competências até à ajuda prática e material. Não se “manda fazer”, faz-se com a família; não se envia ninguém para aqui ou para ali, vai-se com a família;
O Projecto Família utiliza os instrumentos específicos de avaliação dos serviços de intervenção intensiva junto das famílias dos EUA:- North Caroline Family Assessment Scale - Escala de avaliação sócio-familiar aplicada ao modelo “Homebuilders”, na qual se avalia a performance da família, sob diversos parâmetros (Ambiente; Capacidades Parentais; Interacções Familiares; Segurança Familiar; Bem estar do menor; Ambivalência dos Progenitores/ Encarregado de Educação e do Menor e Preparação para a Reunificação);
- Modelo de Competência;
- KISIT - Client Information System Intensive Home Treatment - instrumento de análise de competências;
- Your Deal - instrumento que auxilia no planeamento da intervenção.
- NCFAS
- No final das 6 semanas em que a família teve possibilidade de adquirir, ou não, os instrumentos que lhe permitem consolidar as alterações de comportamento realizadas durante a intervenção, a família faz a sua avaliação sobre o trabalho realizado e, por fim, o Assistente Familiar elabora o relatório da intervenção para a entidade sinalizadora;
- Terminada a intervenção intensiva de 6 semanas, segue-se o trabalho de acompanhamento repartido em 4 sessões de follow-up junto da família: 1 mês, 3 meses, 6 meses e 1 ano. Em conjunto, revêem-se os objectivos, acrescentam-se outros, listam-se as dificuldades e as novas necessidades.
Resultados do Projecto
Os resultados do Projecto Família têm sido bastante positivos:
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Até ao fim de 2009 já se tinha evitado a retirada da família de 838 crianças;
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Já tinham sido acompanhadas 396 famílias;
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Só no ano de 2009, evitou-se a retirada de 158 crianças da sua família e conseguiu-se que 46 crianças regressassem a casa!
Actualmente, vários factos nos mostram que são necessários mais meios para que o Projecto Família possa continuar a dar resposta ao cada vez maior número de famílias necessitadas, mantendo o seu nível de qualidade e eficácia. Alguns desses factos são:
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A identificação crescente de novas famílias que necessitam de apoio;
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A elevada lista de espera de famílias a necessitar da intervenção do Projecto Família;
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Os inúmeros pedidos para apoiar famílias fora do concelho de Lisboa;
-
A necessidade de encaminhamento para outros serviços sociais, de saúde e jurídicos.
Por isso, precisamos da sua ajuda, para que juntos possamos UNIR PARA CONSTRUIR!
Equipa
O acompanhamento de cada família é efectuado por assistentes familiares, tendo estes, uma formação superior e uma formação específica por parte do MDV.
Uma das principais funções do Assistente Familiar, é conhecer melhor estas famílias multi-problemáticas e multi-assistidas, promovendo a resiliência e motivando-as para uma vida melhor.
O investimento na formação e supervisão da Equipa Técnica, é uma prioridade do Projecto Família: os Assistentes Familiares têm supervisão semanal obrigatória e usufruem de formação contínua durante todo o ano.
O MDV é uma entidade formadora certificada pelo IQF (Instituto para a Qualidade na Formação) e pelo Conselho Científico Pedagógico de Formação Contínua. Estes factos revelam a aceitação por parte das autoridades reguladoras do ensino superior da excelência dos nossos programas e da competência dos nossos técnicos.
DIRECÇÃO E SUPERVISÃO
- Graça Mira Delgado
- Isabel Malheiro do Vale
EQUIPA DE ASSISTENTES FAMILIARES
- Ana Carina Sanches - Psicóloga Clínica
- Cátia Bandola - Assistente Social
- Cláudia Próspero - Técnica Superior de Política Social
- Daniela Paradinha - Educadora Social
- Raquel Gonçalves - Socióloga
- Rita Andrade - Técnica de Reabilitação e Inserção Social
- Gisela Nhatxengo - Técnica Superior de Serviço Social
Histórias para contar
A história de Fernanda...
A família foi-nos sinalizada por causa da Fernanda. Esta menina de 4 anos é muito agressiva nas brincadeiras com as crianças do infantário que frequenta, tem comportamentos bastante explícitos a nível sexual e uma linguagem inadequada para a sua idade.
O “processo” desta criança foi aberto em 2006 porque o pai apresentou queixa na polícia contra o marido da ama como por ter abusado sexualmente da sua filha. Por ausência de provas, o caso foi encerrado.
Porém, em 2007 foi reaberto. Desta vez era a mãe da Fernanda a queixar-se do pai da menor por abuso sexual. Está a aguardar a resposta do tribunal, bem como a consulta de Medicina Legal da menina.
A Emília, é uma mulher com 26 anos. Além desta filha, tem um rapaz de 7 anos, fruto de uma relação anterior. Tal como a irmã, este menino tem acompanhamento psicológico por ter comportamentos pouco adequados na escola, o que fazia com que levasse algumas tareias da mãe com um cinto.
A Emília saiu da casa onde residia com o “suposto” abusador da filha e foi viver com os pais onde, por falta de espaço, partilha o quarto com os filhos. Todos os seus pertences ficaram em casa do ex-companheiro uma vez que ali não há espaço para mais.
Assim, um dos seus objectivos é ter o seu próprio espaço e recuperar os seus bens.
O seu ex-companheiro persegue-a na rua, no trabalho e nos locais que frequenta. Manda-lhe mensagens constantes e utiliza os menores para se aproximar dela.
A Emília quer viver em paz e ter força suficiente para se libertar desta pressão que o ex-companheiro exerce sobre ela.
Quer resolver a questão da regulação do poder paternal e conseguir do tribunal uma medida de afastamento deste pai relativamente a Fernanda.
Desta forma, chegou-se ao segundo objectivo da Emília: trabalhar a sua auto-estima no sentido de conseguir total autonomia, tanto material como psicológica, relativamente a este ex-companheiro abusivo.
Alem dos problemas decorrentes da situação já exposta, a Emília gostaria de “ter mais mão” nos filhos, de saber como lidar com as birras de Fernanda e os comportamentos de Pedro na escola, sem perder a cabeça e ter de fazer recurso aos gritos, às ameaças e às tareias. E assim se chegou ao terceiro objectivo da Emília: dar regras e impor limites às crianças e saber castigar com justiça.
Partindo das necessidades verbalizadas pela Emília, a assistente familiar delineou com ela um plano de trabalho a realizar durante o período de acompanhamento. Não se pretendia uma mudança radical nesta família (as mudanças radicais levam, por vezes, toda uma vida…). Pretendia-se remover os factores que punham em risco estes menores e fortalecer os pontos fortes desta mãe, ajudando-a a criar as condições básicas para o efeito.
O que se fez então?
- procura activa de casa;
- regulação das visitas do ex-companheiro aos menores;
- treino de competências parentais: definição das regras familiares, divisão das tarefas domésticas adequadas ao nível etário dos menores, gestão do sress e da raiva;
- treino de competências pessoais: assertividade, capacidade de escuta e expressão de sentimentos.
Na ficha de avaliação que a Emília preencheu, pudemos ler, entre outras afirmações:
“Tive uma pessoa em quem pude confiar e aliviar o meu stress.
Consegui impor algumas regras nos meus filhos.
Senti-me com a família ao meu lado, alegre e com vontade de mudar.
Gostaria de manter um contacto regular com a minha assistente familiar”.
Neste momento a família de Emília continua a ser acompanhada pelo MDV fazendo-se follow-ups periódicos.
A história de Joana…
A família foi-nos sinalizada por causa da Joana. Com 6 anos de idade, está institucionalizada desde que nasceu mas pretende-se que regresse à família, com quem passa agora apenas os fins-de-semana. No entanto, é condição de regresso o trabalho com a mãe, a quem não se reconhecem competências parentais.
Quando a Joana nasceu, sua mãe tinha apenas 15 anos e vivia em casa da mãe e respectivo companheiro, com mais dois irmãos. As dificuldades económicas eram imensas e as condições habitacionais nulas.
Fomos encontrar Dora, mãe da Joana, numa casa abarracada, num bairro problemático na periferia de Lisboa. A “casa” tem uma divisão no piso inferior, com uma casa-de-banho e uma cozinha que funciona também como sala. No piso superior há uma divisão onde dorme a Dora, o actual companheiro e a Joana, quando vem a casa.
A Dora teve empregos pontuais, estando actualmente desempregada, e a estudar para tirar o 12º ano. Recebe o RSI no valor de 280 euros. O companheiro tem uma doença crónica renal grave e recebe uma pensão no valor de 181 euros.
Com uma paisagem de fundo tão negativa, que potencialidades encontrou a assistente familiar nesta família?
- grande união familiar e óptimas relações de vizinhança;
- actividades lúdicas frequentes na família;
- boa gestão dos fracos recursos financeiros e distribuição das tarefas domésticas;
- forte auto-estima da Dora e competências parentais;
- grande motivação para alterar o que fosse necessário ao regresso da filha.
O “retrato” deste agregado familiar era bem diverso daquele que a assistente familiar estava à espera…
Quais eram então as necessidades da Dora?
Verbalizou-as de imediato:
- procurar activamente um emprego;
- encontrar uma casa com um mínimo de condições;
- ter acesso a algum mobiliário e electrodomésticos essenciais;
- conseguir apoio alimentar.
- organizar a casa para a integração em pleno da filha;
- tratar da documentação necessária para a sua transferência de escola e inscrição no ATL;
- adquirir o material escolar solicitado;
- conseguir apoio psicológico para a menor no sentido de uma melhor adaptação à sua nova situação de vida.
A assistente familiar teve, pois, todo o material necessário para traçar com a família os seus próprios objectivos e estabelecer as etapas de trabalho a realizar.
Relativamente ao bem-estar da Joana fez-se o seguinte:
- organização da vida doméstica em função do bem-estar da menor: regras e horários familiares, gestão do espaço disponível, etc;
- transferência de escola e inscrição no ATL. Aquisição do material escolar necessário, através do MDV;
- apoio psicológico gratuito na Junta de Freguesia.
- elaboração do curriculum vitae;
- envio de candidaturas a várias propostas de trabalho;
- inscrição em empresas de trabalho temporário;
- acesso ao RSI.
No que respeita à casa deste agregado familiar, não é possível, com o que auferem, conseguir mudar. Pudemos, sim, fornecer o mobiliário necessário e alguns electrodomésticos articulando com o BUS (Bens de Utilidade Social) e conseguimos o apoio alimentar através do Banco Alimentar.
A assistente familiar constatou, ao longo do tempo que durou a intervenção, que a Joana é uma criança sociável e afectuosa. A troca de carinhos com a mãe é frequente e a cumplicidade entre mãe e filha é total.
Não há qualquer motivo para a Joana continuar fora da sua família. Todos temos direito a viver com os nossos, desde que não se corram riscos.
É o caso de Joana, que viveu num lar desde que nasceu e não sabe o que é viver numa família.
A história de Elsa…
Esta família foi sinalizada em Janeiro de 2008. A ficha de sinalização referia uma mãe agressiva e deprimida com uma bebé de 9 meses. Como a mãe da menor, a Elsa, estava em internamento psiquiátrico, o pai ficou com a guarda da menina e a intervenção não se fez.
Curiosamente, um ano depois, a assistente familiar que tinha ficado de acompanhar esta família recebeu uma chamada telefónica da Elsa, estava em pânico, porque queriam retirar-lhe definitivamente a menina colocá-la num Lar de Acolhimento.
A intervenção começou de imediato.
Quem é a Elsa, o que faz, com quem vive?
Teve um passado complicado pelo que idealizou constituir uma família feliz. Arranjou um companheiro de quem teve esta menina mas as coisas não correram conforme o sonho da Elsa. A depressão pós parto que sofreu foi tão grave que teve de ser internada numa unidade psiquiátrica. O pai assumiu o compromisso de zelar pela filha enquanto a mãe o não pudesse fazer. Mas a vida dá muitas voltas… veio uma oferta de emprego bastante convitativa na Holanda pelo que o Emanuel decidiu partir e tentar a sua sorte com a especialidade que tinha aprendido a dominar: a cozinha. Entregou a Mariana a uma ama e partiu…
Refeita da sua depressão, a Elsa era agora confrontada com uma realidade muito dura: um companheiro ausente e com pouca motivação para regressar e uma menina com a qual lhe era permitido estar apenas nos fins-de-semana e nas férias. Como a ama não oferecia garantias suficientes das suas competências, a entidade sinalizadora achava por bem retirar a menor à ama e impedir esta mãe incompetente de recuperar a filha.
A assistente familiar deparou-se com uma casa que é um verdadeiro cubículo: há um quarto que funciona também como sala, uma cozinha e uma casa de banho. Não tem espaço para arrumação pelo que os parcos haveres da Elsa estão dentro de sacos de plástico. Também não existe esquentador. A Elsa sobreviveu durante o ano transacto com um subsídio da Santa Casa do qual ia ser privada uma vez decidida a institucionalização da Mariana, sendo que conseguiu o RSI, no valor de 180 euros.
Como é a Elsa? Como está ela neste momento? O que faz? O que quer fazer da sua vida?
Nas duas primeiras semanas de intervenção, a assistente familiar constatou o seguinte:
- a Elsa vive na esperança de que o marido regresse e o pesadelo da família desfeita acabe;
- gostava de ter uma casa em condições onde possam viver dignamente os três;
- mãe e filha têm um óptimo relacionamento.
Objectivamente, por que motivo é que a Mariana não pode voltar para casa da mãe?
As pessoas têm de ser castigadas quando têm depressões e se mostram incapazes de, no momento, cumprirem todas as suas funções?
A esperança de reaver a filha levou a Elsa a verbalizar as suas necessidades imediatas:
- informar de imediato a Equipa de apoio ao Tribunal de Família e Menores que vai aceitar a intervenção do Projecto Família havendo assim a hipótese do Tribunal não procede à retirada imediata da Mariana;
- trabalhar e ganhar o suficiente para si e para a sua filha;
- provar que é uma mãe capaz e que a filha se sente bem com ela.
O trabalho com a assistente familiar foi realizado no sentido de se atingirem estes objectivos enunciados pela Elsa. Assim:
- Informou-se a Equipa de Apoio ao Tribunal de Família e Menores sobre esta intervenção e respectivos objectivos;
- marcou-se uma reunião com os técnicos envolvidos neste processo;
- agendou-se a avaliação psicológica da Mariana no departamento de Psicologia do MDV no sentido de provar que é uma criança física e psicologicamente saudável que tem toda a vantagem em regressar à sua família;
- contactou-se o Banco de Bens Doados para providenciar um esquentador e outros bens essenciais necessários a uma casa com uma criança;
- fez-se uma procura activa de emprego e conseguiu-se. A Elsa tratou sozinha da documentação necessária para o ingresso no seu posto de trabalho;
- falou-se com a educadora da Mariana e o feed-back foi muito bom;
- trabalhou-se a auto-estima da Elsa, valorizando as suas capacidades e ajudando-a tomar consciência das fragilidades que poderiam por em risco a sua autonomia e capacidade de decisão enquanto mãe.
A assistente familiar afirmou, no final da intervenção junto da Elsa, que foi esta a mãe mais competente com quem trabalhou a nível da relação com a filha.
A história de Helena e Rosa…
Esta família foi intervencionada em finais de 2008 e, na ficha de sinalização, eram referenciados os seguintes problemas: negligência, delinquência e violência familiar.
As duas menores consideradas em risco eram a Helena e a Rosa, a primeira com 13 anos de idade e a segunda com 11. O que despoletara a sinalização tinha sido o facto de terem ficado entregues a si próprias quando a mãe foi internada no hospital, na sequência de uma sova aplicada pelo seu filho mais velho, o Felipe, à data com 18 anos.
A assistente familiar foi conhecer a família. A Helena é que lhe abriu a porta, ao meio da tarde, porque a mãe estava a dormir.
A casa estava razoavelmente arrumada embora desprovida de conforto e de higiene.
A mãe levantou-se para vir conhecer a assistente familiar e já vinha alcoolizada. Este alcoolismo é um facto instalado e a Olga não consegue ter mão no seu consumo, na gestão doméstica e, mais grave que tudo, na prestação de cuidados às filhas.
Soubemos que o pai trabalhava na construção civil fora do país e que só vinha a casa uma ou duas vezes por ano. Tinha, no entanto, o cuidado de mandar dinheiro para o sustento da família que a Olga desbaratava na bebida e na má gestão que fazia dos seus parcos recursos. O Felipe estava detido por homicídio. Embora mãe e filho tivessem uma relação conflituosa, o Felipe demonstrava grande preocupação com o destino das irmãs.
As meninas mostravam algum desalento e uma total impotência face aos comportamentos da mãe. A Helena tinha muitas faltas na escola e falsificava a assinatura da mãe na caderneta e nos testes. Havia, porém, muito afecto entre elas o que pesou imenso em termos de motivação para a alteração de alguns comportamentos.
Era este o quadro da situação familiar. A alegria, a disponibilidade mas, sobretudo, a perseverança da assistente familiar granjearam-lhe a confiança desta pequena família.
Uma vez criada a empatia, fez-se então o levantamento das necessidades verbalizadas pelas três. Uma vez concluído, chegou-se à conclusão que, em termos de saúde, contactos com a escola, procura de apoios locais e legalização da mãe das menores, estava tudo por fazer.
É importante começar com o básico e com tarefas muito concretas. Assim, e relativamente às menores, conseguiu-se:
- pôr em dia as vacinas;
- articular regularmente com as directoras de turma ;
- apoio psicológico gratuito para a Helena.
Com a Olga foi mais difícil porque a dependência do álcool é enorme. Foi fundamental a relação de amizade e confiança que estabeleceu com a assistente familiar. Só assim lhe foi possível falar das suas dificuldades, das suas frustrações, da impotência sentida face à sua dependência alcoólica. Também da enorme vergonha, da raiva, da solidão e desses sentimentos todos aos quais não se consegue dar nome…
Mas fez-se um grande trabalho:
- as consultas de clínica geral e de alcoologia ficaram agendadas;
- tratou-se da sua renovação de residência;
- procurou-se, a partir das amizades estabelecidas no bairro, o apoio a este agregado e a supervisão possível;
- estabeleceram-se, entre mãe e filhas, algumas regras de funcionamento em casa;
- providenciou-se o acesso ao Banco Alimentar;
- conseguiu-se algum mobiliário em falta e reorganizaram-se os espaços familiares.
Acabada a intervenção de seis semanas, a assistente familiar foi realizando os follow-up e foi mantendo contactos pontuais com a família no sentido de “aguentar” a situação até ao internamento da Olga no Centro de Alcoologia para tratamento uma vez que estava já em progresso uma desintoxicação com algumas recaídas pelo meio…
A pedido da Olga, e estando a aproximar-se o momento da sua “retirada de cena”, foi decidido, em reunião da equipa, realizar uma segunda intervenção junto desta família.
Esta segunda intervenção está agora na recta final. O panorama é já um pouco diferente daquele que a assistente familiar vislumbrou ao longo da primeira intervenção. A Olga continua a tomar a medicação adequada e tem períodos de sobriedade. Está consciente das suas fragilidades e aguarda com impaciência o internamento que se aproxima. A filha mais nova verbalizou que as recaídas da mãe acontecem sobretudo nos fins-de-semana. Mas ela já vai sendo capaz de confrontar a mãe com esse facto.
O apoio psicológico à Helena continua a decorrer. A casa vai-se mantendo razoavelmente organizada.
Agora é preciso preparar o período em que a Olga vai estar ausente e providenciar, junto da família alargada ou mesmo num Lar de Acolhimento Temporário, a guarda das menores.
É toda uma equipa que está ao par da situação e que aguarda o desfecho desta história.
Esperamos que a Olga consiga ultrapassar este obstáculo, talvez o mais penoso a acrescentar a tantos que conheceu ao longo da sua vida.

